Texto Integral publicado em: Notícias Magazine" de 9 Out. 94 - Copyright: Pedro Palma 1994/2010
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Um velho ditado angolano diz que quem beber da água do rio Bengo ficará para sempre ligado a África, não mais de lá saindo. Bebi da água do Bengo. E, como o ditado diz, fiquei preso àquela terra, de odores, iluminada por um sol cor de salmão. Terra onde a miséria se confunde com o sorriso da gente alegre e despreocupada.



Vista de avião, Luanda é quase bela. Longe ainda do lixo, da miséria e do cheiro nauseabundo do esgoto a céu aberto que é toda a cidade. Uma falta de higiene mais do que suficiente para impressionar qualquer europeu habituado a conviver com os bairros negros degradados que envolvem cidades como Lisboa. Um “ghetto” gigantesco, não fosse maioria das cidades africanas assim. 

Curiosamente, esta terra – onde o primeiro desejo é o de sair dali o mais depressa possível – cativa-nos de tal forma que, à partida, apetece ficar. Isso acontece, talvez, por causa do clima estonteante que provoca uma preguiça saborosa.

Luanda lembra uma mulher entregue à bebedeira e a quem rugas profundas não conseguem apagar traços de uma grande beleza de tempos idos. É uma cidade sofrida que não deixa de sorrir para quem com ela convive. É amável e gentil quando tratada com carinho.

À noite, quando o lixo é menos visível e os odores menos intensos, ergue-se para mostrar a sua silhueta ainda elegante. Numa derradeira tentativa de recuperar a dignidade e esplendor de outrora. 

Luanda paga sempre um último copo àqueles que com ela ficam até que o dia venha sempre lembrar a sua decadente realidade.

A anarquia mais ou menos controlada que se vive em Luanda permite tudo fazer aos que nela habitam. Angolanos  ou estrangeiros.

O Governo, a braços com uma guerra que dura há demasiado tempo e que chegou a invadir a capital, nos confrontos de Outubro de 92, já não sabe o que fazer. E dos encontros de Lusaca não sairá, certamente, a solução de que Angola tanto necessita. O cheiro de paz que perfumou o ar desde Bicesse, em 1991, até finais do ano a seguir, não foi o suficiente para dar descanso aos martirizados pela guerra, pela fome e pela doença. O povo, que nas suas gerações mais recentes não conheceu outra coisa se não o sofrimento, continua claramente, apesar de tudo, a apoiar o esforço inglório do Executivo de José Eduardo do Santos para a democratização e para  paz neste país imensamente rico que já ninguém acredita ser possível recuperar, do ponto de vista político. 

Gravemente atingida por uma profunda crise geral, Angola vive com leis que ignora. Cumprir e fazer cumprir a lei depende quase sempre do que cada um pode pagar. A corrupção, completamente generalizada, está presente em todos os actos da população com o inocente nome de “gasosa”.

Dizia um deputado da UNITA, na discussão da lei anti-corrupção, na Assembleia Nacional, recentemente: “...se vamos castigar os corruptos, teremos que castigar todo o povo. Sabemos que ninguém vive do seu salário”. Isto mostra bem o estado das coisas.

Desde que Luanda se abriu ao capitalismo das “notas verdes”, criou-se um tal fascínio pelos dólares que até os meninos da rua pedem esmola em americano. 

A inflação trepa no sentido inverso ao do valor do novo kuanza (NKz), a moeda nacional, tão torturada como os que dela dependem. Duzentos mil NKz valem, aproximadamente, 130 escudos e um ordenado médio pode atingir os dois milhões. Contas feitas ao câmbio do dia do dólar, dá qualquer coisa como oito dólares, 1.300 escudos. Como referência, devo notar que um prato num restaurante de vigésima» categoria custa à volta de 500 mil novos kuanzas. Um professor ganha dois milhões. 

De contradições está a «grande cidade» cheia. Não é necessária muita atenção para nos apercebermos da quantidade de carros a circular pelas ruas esburacadas e fedorentas. Uma das explicações para este facto é o preço da gasolina ser incrivelmente baixo: cerca de dois escudos por litro. Com, aproximadamente, 65 escudos pode-se encher o depósito. 0 maior problema de quem tem carro é a sua manutenção. É excessivamente cara e torna-se às vezes impossível por falta de peças. 

O transporte público de pessoas é mais ou menos assegurado pelos candongueiros. Particulares que com jipes, carrinhas e camiões, a cair de podres, transportam gente e mercadorias impressionantemente comprimidas. Uma quantidade imensa destes agonizantes veículos, que só Deus sabe com que sacrifício se arrastam, circulam durante todo o dia para baixo e para cima. Os candongueiros lá vão fazendo andar a cidade, da mesma forma que vão fazendo andar as suas carripanas.

Andar de carro próprio é um luxo de uma pequena minoria. E se Luanda está a abarrotar de carros entrados na terceira idade, não se podem ignorar os últimos modelos das grandes marcas americanas, europeias e japonesas, Mas mesmo esses bons carros apresentam escoriações. Quase todos acidentados. Com pára-brisas partidos ou mesmo sem eles. Grande parte mostrando feridas de guerra, buracos de metralha despreocupadamente remendados e por pintar. A economia vai andando segura por arames iguais aos que seguram os motores dos candongueiros. São os estrangeiros, a maioria portugueses, que vão fazendo o movimento de capitais e recebendo chorudas contrapartidas. E o Governo de, “Zédu”, sabe que precisa deles como água para beber. Por isso a lei do Investimento Estrangeiro está todos os dias a ser reformulada no sentido de facilitar a vida aos empresários. 

No entanto, a verdadeira economia de Luanda funciona no “Roque Santeiro”: o famosíssimo mercado na periferia da cidade que se pode, ironicamente, comparar a qualquer Bolsa de Valores dos países desenvolvidos. Principal posto abastecedor da cidade, ao “Roque Santeiro”, vão parar os produtos roubados dos contentores importados de todo o Mundo. É um mercado, e não só, ao ar livre onde se cruzam centenas de milhar de pessoas e são negociados os mais diversos artigos, de primeira, segunda ou terceira necessidade. Desde alimentos a mobiliário, medicamentos a gado, liamba a pasta de dentes. 

Tudo se encontra no "Roque". Sobretudo perigos para um branco carregando uma panóplia fotográfica, como eu, disposto a arrancar meia dúzia de imagens para ilustrar este texto. O que só foi possível graças a dois guarda-costas negros, um deles armado. De outro modo, tenho a impressão de que eu próprio, e depois de espoliado, apareceria à venda no dia seguinte como sendo carne de porco. É no “Roque Santeiro”, que se encontram todos os desesperados da miséria e da guerra. Nele se refugiam muitos rapazes com mais de 16 anos, às vezes com menos, para não serem apanhados nas rusgas que os levarão direitinhos às fileiras das FAA. 

No “Roque”, funciona o maior «banco privado» de Luanda. É o centro de actividade das kinguilas, mulheres que ocupam todo o seu tempo a trocar, comprar e vender dinheiro. Kuanzas, por dólares e vice-versa.

Comércio ilegal de dinheiro que pode criar sérios problemas ao incauto estrangeiro que às kinguílas recorra para trocar os seus dólares. Irá certamente preso, assim como a que com ele esteja a negociar. São elas as donas do câmbio paralelo. Muito superior ao oficial. 

Aparentemente, a actividade das kinguílas. nada tem de ilegal. Elas estão espalhadas por todas as ruas da cidade, sempre a contar e recontar maços volumosos de notas de mil NKz perante a indiferença cúmplice dos polícias que intervêm logo que haja troca de dinheiro.

É pena a impossibilidade de registar o odor do mesmo modo que se registam imagens em película. Sem o cheiro que do "Roque" emana, qualquer fotografia, por muito boa que seja, está longe de o mostrar tal como ele é na realidade. Muitas vezes tive de tapar as narinas com as mãos para evitar o vómito. O chão chega ficar empapado por fluidos viscosos e espessos como petróleo que a terra não se atreve absorver.

Em Luanda, apesar de tudo, ainda é possível fazer turismo. O que implica uma boa dose de predisposição para enfrentar situações penosas como a total inexistência de táxis. O mais semelhante que se pode encontrar são os candongueiros, sempre simpáticos, com os seus barulhentos e velhos veículos que podem revelar-se uma excelente opção se contratados à semana.

Há grandes hipóteses de se ter sérios problemas com a polícia, ou mesmo com os militares, se se pretender registar recordações fotograficamente. Sem qualquer indicação, há várias zonas de Luanda que são proibidas a quem pretende «clicar», como o caso da Fortaleza que é, seguramente, uma das mais belas paisagens sobre a cidade.

Não se deixará de fazer turismo em Luanda por falta de bons hotéis e restaurantes. Há-os com uma qualidade que rivaliza com a dos melhores da Europa. É assim o "Presidente", da cadeia Le Merídian, onde o luxo está bem patente em toda a decoração. O serviço é excelente e a sua cozinha internacional é soberba. Gostaria de saber como conseguem produtos com a qualidade e frescura que me deliciaram. O vinho, francês, claro, pareceu-me veludo liquefeito. 

O edifício do "Presidente" é um dos mais modernos, altos (26 andares) e bem conservados de toda a cidade de Luanda, beneficiando também de uma óptima localização na Marginal. 

Só à saída nos damos conta de que estamos num país africano, em guerra. Os meninos da -rua (quase todos refugiados) vestidos com trapos que parecem ter nascido com eles, assaltam-nos a oferecer cigarros, MarIboro e de outras marcas, a duzentos mil novos kuanzas (130 escudos) na eterna esperança de conseguirem o suficiente para comer uma sopa no fim do dia. 

O Tivoli é outro hotel onde se encontra um serviço requintado. Nele vive o correspondente da RTP, Carlos Albuquerque. E também nele me cruzei, mais do que uma vez, com Sousa Cintra, presidente do Sporting. 

Comi no Tivoli a melhor maionese de lagosta. Não resisti ao leitão angolano, a cujos calcanhares não chegam os nossos Bairrada e Negrais. No fim, fica-nos um indigesto remorso por não se ter dividido o repasto com dois milhões de gente com fome. 

Vinte metros abaixo do hotel, "ataca" um grupo de jovens prostitutas, mulatas muito belas e nunca com mais de 17 ou 18 anos, que por um milhão de novos kuanzas, 650 escudos, oferecem a possibilidade de uma delirante noite de amor africano. Qualquer uma dessas raparigas teria um futuro brilhante na Europa como modelo. Só que a sorte delas é a mesma má sorte de todo o povo angolano. 

Na ilha de Luanda, uma língua de areia que se estende em frente à baía, digladiam-se novamente os contrastes entre a pobreza absoluta e o luxo do Norte. Medeia o conflito a beleza natural desta península com nome de ilha. 

No seu dorso ocidental ficam as melhores praias da cidade, só superadas pelas do Mussulo (uma ilha paradisíaca, 20 quilómetros para sul, frequentada por homens de negócios de Luanda ou de passagem por ela). Mesmo no fim da extensão da Ilha de Luanda, ficam dois bares restaurantes de construção tropical e que nos confundem a respeito do local onde nos encontramos. O Barracuda e o Afrodisíacos. Ambos com esplanadas magnificas debruçadas sobre as águas do oceano Atlântico Sul. Nos dois, a conta é apresentada em dólares, mas apenas o Barracuda aceita cartões de crédito.

Entre a "ilha" e a cidade, no meio da baía, temos a presença permanentemente monstruosa e estranha de uma sonda da Petrobrás. Esta plataforma petrolífera gigantesca é ainda mais perturbadora quando vista por entre as palmeiras da ilha e batida pela luz vermelha do sol cor de salmão do fim da tarde.

A noite vem sempre realçar a beleza da cidade. Como que maquilhada, Luanda liberta-se um pouco do lixo, que deixa quase de se ver, e o seu cheiro fica mais suave. Como se a cidade tivesse parado de transpirar com o fresco da cacimba. 

A baía, muito iluminada, parece pertencer agora a uma qualquer cidade desenvolvida. Apenas o facto de a Marginal estar praticamente deserta às 21 horas faz suspeitar que nem tudo está bem.

As gentes de Luanda «investem tudo» nas noites do fim-de-semana, É sexta-feira e a grande noite (três como se fossem uma só) vai começar daqui a pouco. Poderá ser no bar do Jorge, Noites Quentes, no Terraço, no bar do Mi ou no Navio, mas de certeza que vai acabar, se necessário, com tiros pelo meio, no grande, no fabuloso, no incrível, Pandemónio. A mais "ín" discoteca de Luanda. O seu nome espelha o que vai dentro ela. 

Uma festa total que dura enquanto a noite quiser. A música é muito boa, no seu género “Vê se te mexes”. E quando o não é, um charro faz dela um hino ao prazer de “bem curtir”. Não vá a guerra surgir, novamente, pela cidade quando a manhã chegar. 

No Pandemónio é urgente viver a noite como se fosse a última vez. Com euforia e paixão. Com todo o suor que se possa libertar do corpo deitando por terra, às quatro da manhã, os últimos vapores de perfume francês posto em honra do "deus Pandemónio". 

São assim as noites de Luanda, e também nos "musseques" (bairros mais pobres) que envolvem o "grande musseque", a kizomba, se dança de sexta a domingo. Enquanto a cerveja durar, a festa está garantida. As mulheres não têm dono nem senhor e todos lhes têm direito. Para os meninos da rua ficam donativos ebriamente generosos. 

Eu tive de sair no meio da festa para regressar a Lisboa. No entanto, o feitiço do Bengo cumpriu-se. Fiquei ligado àquela terra mágica, onde dias curtos dão mais tempo à noite que nos permite tudo desfrutar. 

Beberei da água do Bengo sempre que tiver oportunidade.

 

Quando cheguei a Luanda, com a intenção gorada de conseguir voar com o PAM (Programa Alimentar Mundial) das Nações Unidos até ao Zaire e registar a entrada dos refugiados ruandeses em Goma, não me passou pela cabeça que os primeiros sustos com militares os fosse ter precisamente em Luanda. 

Às 7:30 aterrei no Aeroporto 4 de Fevereiro e passada uma hora já estava instalado em Luanda. No entanto, a falta de uma mala obrigou-me a voltar ao aeroporto para tentar recuperar a bagagem no serviço de perdidos e achados. Cumpridas as formalidades, e sem que tivesse recuperado o que perdera, pedi a um polícia para me dar acesso à placa do aeroporto com a intenção escondida de fotografar um avião, com as cores da Aeroflot sobre o qual eu já tinha ouvido rumores de ter sido atingido por artilharia da UNITA (quando descolara de Malange) com destino a Luanda. Havia feridos em estado grave, tendo eu fotografado os rombos, visíveis na fuselagem.

O polícia olhou, "conhecedor", para a minha carteira de jornalista com a palavra PRESS escrita na capa e nem sequer a abriu. Deu-me passagem por um espaço reservado a diplomatas. Acompanhava-me o meu contacto em Luanda.

Chegados à placa do aeroporto, eu e o meu contacto, montámos para um tractor e pedimos boleia para o local do aeroporto onde estavam estacionados aviões da Aeroflot e outros das Nações Unidas. A troco de uma nota de dólar comprámos a boleia.

Comecei a fotografar o Tupolev atingido pela UNITA e já tinha na minha posse bom material de reportagem quando um jipe, com dois brancos, parou à minha frente e me disseram que não podia fotografar ali, que estava numa placa militar. Começaram imediatamente aos gritos a chamar soldados. Curiosamente, davam ordens aos militares, embora trajassem à civil.

Transpirei quando vi sair de trás de um C-130 da TAAG, ao serviço das FAA um grupo de soldados de metralhadoras AK apontadas para mim e para o meu contacto.

Fui levado para um edifício militar sob prisão onde me acusaram várias vezes de espião. Depois de já me terem tirado a máquina fotográfica, o impressionante major Candengue - óculos escuros, camuflado, boina preta e um pescoço terrivelmente marcado por cicatrizes - com um ar extremamente agressivo devolveu-me a câmara pedindo, aos berros, que tirasse o rolo e lho desse. 

Eu tinha muito material que me podia comprometer, uma vez que ainda não estava credenciado como jornalista, em Luanda. Por isso, e como o major Candenque não tinha especificado como queria o rolo, aproveitei e abri a máquina puxando o filme rapidamente, queimando-o ao mesmo tempo. Esta minha atitude enfureceu de tal forma os oficiais presentes que receei levar, no mínimo, uma coronhada.

A hora que se seguiu foi ocupada com telefonemas para a Polícia, para a Guarnição Militar de
Luanda e para o Estado-Maior das FAA. Creio que não sabiam muito bem quem haveria de
ficar comigo: se a Policia, se as FAA. Uma vez que tinha, sido detido no «fronteira» entre o placa civil e a militar.

Passado algum tempo, um jipe levou-me para a Guarnição Militar de Luanda, onde fiquei até meio da tarde sem comer e a ouvir promessas, não cumpridas, de que tudo se esclareceria dentro de poucas horas. Fui então considerado detido e não preso, o que me aliviou bastante. No entanto, o alívio total só viria no dia a seguir, depois de ter sido transferido para o quartel-general das FAA. Eram 19 horas e eu tinha comigo a minha Nikon e o meu passaporte.

 P.P

 

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