PEDRO PALMA
LETRAS

 

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O DONO DA LUA, de Pedro Palma, por: Salvato Teles de Menezes*
 

O Dono da Lua é um romance extenso e denso, e, que procura «descarregar» sobre o leitor uma vasta quantidade de informação (peripécias ficcionais) distribuída, a meu ver, de forma indubitavelmente equilibrada, por muitas páginas recheadas de personagens que são o veículo de diversas e, por vezes, contraditórias mundividências (manifestações da liberdade individual que, como não podia deixar de ser, entram em contradição com as imposições de uma realidade social fracturada e obsidiante): assim é a realidade da vida e, em particular, a(s) realidade(s) da(s) vida(s) de ficção. 

Um dos aspectos mais interessantes desta obra reside, diga-se desde já, na aparente dicotomia entre o tema tratado (em última instância, a questão da vida e da morte), que tem sido preocupação persistente em toda a literatura, e a sua abordagem, que é, não só pelo modo como o olhar do autor nele se fixa (enquanto expressão de pontos de vista diferenciados), mas também pelos estilemas mais utilizados, extremamente moderno, actual: o tema é, podemos dizê-lo sem temor de erro, «manipulado» através de uma sequência de loci, concretos e mentais, que obrigam o leitor a uma constante atenção crítica que só é possível à custa de uma grande disciplina de leitura: mas não disse um grande pintor que se lhe custou tanto esforço a criar as suas obras, por que razão não há-de o observador estar sujeito ao mesmo?

Há, por outro lado, neste livro uma esquiva dimensão autobiográfica (expressa através de referências que podem ser mais ou menos identificáveis: não é despiciendo considerar as pessoas a quem o autor dedica a obra e o modo como o faz, para assim nos introduzir de imediato num universo preciso) que se resolve em ricas tonalidades irónicas e nostálgicas. Lord Byron, que dominou como poucos escritores, estas tonalidades (a ironia e a nostalgia: às vezes a nostalgia do que não existe ainda) escreveu:  «[...] a melancolia é uma dádiva terrível. Que há-de ser senão o telescópio da verdade?» De facto, os tempos que vivemos (os descritos em O Dono da Lua) são terríveis, sinistros mesmo. Cada um dos nossos ingénuos e nervosos olhares antecipa um provável acontecimento desastroso. Quase todas as manhãs, quando acordamos para o mundo, a paranóia sacode-nos e alerta-nos, fazendo-nos cambalear sob um céu

carregado de espectros. De noite, o medo persegue-nos sob o manto da escuridão. É assim que grande parte das personagens se sente e sente o mundo: tenta resistir a estes maus presságios (uns mais nítidos, outros mais vagos), esforçando-se por encontrar a maneira mais adequada de os definir e de os combater, esperando que através dessa definição (que, antes de mais, ê uma enumeração) encontrar um sentido, um pista, por mais ténue que seja, para o seu desassossego. (Atente-se na selecção dos passos da Bíblia que servem de epígrafe aos diferentes capítulos e que se também relaciona com o que vem a seguir.)

Há ainda um rio subterrâneo, de águas muito apocalípticas, que banha as profundezas deste romance vindo de uma nascente escondida no espírito de todos os seres humanos: o que é, como se manifesta e se alcança a felicidade? O que, no fundo, este livro nos diz é que não é possível chegar a um qualquer estado de felicidade através de processos externos, de manobras dilatórias, tão-só através de uma introspecção levada até às suas últimas consequências, seja lá qual for o preço a pagar: os caminhos são diversos, mas estão todos dentro das personagens (de nós, afinal): resta-lhes (e a nós) optar pelos mais convenientes às suas (nossas) singularidades, idiossincrasias, que devem ser assumidas na plenitude das suas implicações.

Permito-me, para concluir, apresentar uma sugestão que, do meu ponto de vista, poderia enriquecer ainda mais esta obra, cujo fôlego narrativo e cuja pertinência intelectual são inquestionáveis: fazer um trabalho de revisão formal para burilar alguns diálogos e eliminar algumas cenas que se apresentam como redundantes, sublinhando-se assim a sinceridade e a força sentimental com que O Dono da Lua foi concebido e executado.

                                                                                 

 Cascais 2009
* Salvato Teles de Menezes foi professor de Línguas e Literaturas Modernas.
Atualmente é Presidente da Fundação D. Luís I em Cascais
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O VELHO
em execução

 

 

 

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